TRAUMA – Deneli Rodriguez

Passamos a vida nos culpando e culpando aos outros, as circunstâncias, pelos traumas que vivemos, pelas dificuldades que possuímos, pelos medos que sentimos e sofremos por não conseguirmos nos livrar, nem perdoar aos outros pelos pesos que carregamos.

– Deneli Rodriguez – Atriz, pensadora e especialista em saúde, bem-estar e qualidade de vida. Formada em Relações Internacionais, Semiótica, Filosofia, Artes Cênicas, Moda, Ayurveda e Yoga. É criadora do Yoga na Paulista, dá aulas, palestras, cursos e consultas. Atende presencialmente em São Paulo e virtualmente em todo o mundo. Ensina a Filosofia do Autoconhecimento Profundo através do “isso é só um pensamento seu, não é a verdade, não é a realidade”. É pesquisadora da mente e da psicologia humana, bem como do funcionamento, criação e comportamento do Universo. Está escrevendo seu primeiro livro, um guia de qualidade de vida.

Achamos que um acontecimento que nos gerou um trauma precisa ser superado revisitando o passado. Recorremos aos psicólogos, aos gurus, entramos em religiões, fazemos treinamentos da mente com o objetivo de nos livrar do sofrimento que sentimos. Culpamos o mundo por sermos quem somos e nunca nos desculpamos pelas falhas que cometemos.

Sustentamos um peso enorme do passado por acreditarmos que precisamos dele para nos justificar ou para entendermos quem somos.

Quantas vezes usamos os acontecimentos do passado (o nosso ou de nosso histórico familiar) para justificar nossas ações, medos e angústias?

O passado não precisa ser compreendido para nos livrarmos do que não queremos mais.

Não importa se nos aconteceu algo terrível, ou se presenciamos cenas que nos fizeram mal, podemos nos libertar desse peso agora mesmo. Basta que decidamos mudar e compreendamos que ainda hoje usamos essas mesmas estratégias para respondermos às circunstâncias.

Lá no passado, quando as coisas aconteceram, foram gravadas em nossas memórias as nossas interpretações daquele momento, como éramos naquele momento. E continuamos fazendo isso agora. Saber que é assim que somos e observar a quantidade de interpretações que damos a tudo o que nos ocorre, nos faz ver e entender que são somente nossas interpretações, assim como também fizemos no passado.

Sabendo disso, entendemos que reagimos e interiorizamos os momentos vividos de acordo com o nosso repertório da ocasião, entendemos termos nos sentido como nos sentimos e também os motivos em termos culpado as pessoas de serem como elas são. Elas de alguma maneira não se encaixaram nas nossas ideias daquele momento e foram reforçando essa nossa mesma interpretação ao longo do tempo. Independentemente do que elas foram ou de como agiram, nossa mente sempre dá um jeito de comprovar nossas próprias teorias, interpretações e projeções.

Assim fizemos na nossa infância e assim continuamos fazendo. Se nossos pais, por exemplo, não corresponderam ao nosso modelo de pais ideais, sofremos por não vermos nossas projeções realizadas e podemos passar a vida toda os culpando por sermos quem somos sem nos darmos conta de que fomos nós que criamos um modelo a respeito deles e, que o fato de eles não se encaixarem, nos fizeram (ou nos fazem) sofrer.

Somos sempre nós os responsáveis por sermos quem somos.

É aquele assunto que falei em outro texto sobre o quanto achamos que conhecemos as pessoas e o quanto gostaríamos que elas fossem diferentes. Tentamos sempre encaixar as pessoas e o mundo nos nossos modelos com a esperança de que assim sejamos felizes e deixemos de sofrer.

Queremos nos livrar das nossas aflições a qualquer preço e até conseguimos por breves momentos quando encontramos pessoas ou situações que nos tragam algum alívio ao espelharem nossas crenças, gostos e simpatias.

Acreditamos que se nossa vida no passado tivesse sido diferente, se nossos pais fossem outros, se tivéssemos tido outra situação financeira ou morássemos em outro lugar, não sofreríamos e seríamos felizes. Evitamos a todo custo olhar para nós, evitamos admitir que nós demos significados negativos para os acontecimentos do passado, ou melhor que nós demos todos os significados, negativos ou positivos, no passado e que continuamos agindo assim. Fomos nós que inventamos a justificativa do “se meu passado tivesse sido outro, hoje eu seria melhor, mais feliz”.

Precisamos da crença de que as coisas vão ser diferentes se tal ou qual coisa acontecer, se a pessoa certa aparecer, se a situação financeira mudar, mas a verdade é que nunca estamos satisfeitos. Tão logo conseguimos o que achávamos que nos preencheria, voltamos a nos sentir incompletos. É um sentimento de falta que não termina nunca.

Não queremos ver que nos decepcionamos no passado e que continuaremos a nos decepcionar, não tem salvação, nem saída. Gostamos de acreditar que no futuro só seremos felizes, que basta ter fé e esperança. Os dias são o que são. Em alguns dias nos sentimos capazes de conquistar o mundo, em outros não queremos sair da cama. Há dias de grandes realizações, de momentos felizes e, há dias de problemas e decepções. Ver que é assim, é a chave para vivermos mais leves, menos presos e dependentes das nossas ilusões.

Enquanto não conseguirmos entender que somos assim, que queremos conseguir o queremos, que sofremos quando não conseguimos, que projetamos e criamos expectativas o tempo todo, não conseguiremos sair desse ciclo sem fim. Pularemos de um trauma a outro, nos justificando segundo eles por agirmos como agimos e sermos quem somos.

Por causa desse sentimento, achamos que precisamos revisitar o passado para compreendermos porque nos sentimos como nos sentimos. Temos a esperança que entendendo, por exemplo, que temos medo de nos relacionar afetivamente porque tivemos uma má experiência no passado, conseguiremos nos relacionar melhor.

A verdade é que se fosse assim, ao analisarmos todos os acontecimentos que nos fizeram ser quem somos nos sentiríamos bem, felizes e satisfeitos, mas não é o acontece. Entender o passado não ajuda a resolver a constante insatisfação que sentimos.

Somente a compreensão de que estamos o tempo todo querendo ver nossas expectativas atendidas, nossas projeções correspondidas e nossas interpretações corretas, é que nos liberta desse ciclo de sofrimento. Entender quem somos e como funcionamos é a única maneira de nos libertarmos do sofrimento. Entender o quanto acreditamos em nossas próprias criações, o quanto inventamos a respeito dos outros e de nós mesmos, é a chave para encontrarmos a paz e alegria que tanto buscamos.

Não é matéria fácil assumirmos que tudo o que carregamos e somos, é nossa responsabilidade.

Não é fácil admitirmos que ninguém nem nada tiveram a responsabilidade por nosso sofrimento e insatisfação, mas que fomos e somos nós os criadores da nossa realidade.

Deneli Rodriguez.

28.03.2017.

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