O TEMPO – Deneli Rodriguez

Dentro dos temas prometidos para refletirmos juntos estava o do tempo.

Criamos o tempo cronológico para organizar melhor a vida, para entendermos e situarmos os acontecimentos de maneira linear. O que estou dizendo não é nada novo a não ser que você nunca tenha pensado que o tempo é uma invenção humana.

Escolhemos chamar de dia o momento que o sol nasce e de noite o momento que o sol se põe. Na verdade não existe nascer, nem por do sol, mas demos esses nomes assim porque é como percebemos essas paisagens. O modo como eles são percebidos, nos ajudaram a criar o dia de 24 horas e assim consequentemente os meses, os anos, os séculos, as estações do ano.

– Deneli Rodriguez – Atriz, pensadora e especialista em saúde, bem-estar e qualidade de vida. Formada em Relações Internacionais, Semiótica, Filosofia, Artes Cênicas, Moda, Ayurveda e Yoga. É criadora do Yoga na Paulista, dá aulas, palestras, cursos e consultas. Atende presencialmente em São Paulo e virtualmente em todo o mundo. Ensina a Filosofia do Autoconhecimento Profundo através do “isso é só um pensamento seu, não é a verdade, não é a realidade”. É pesquisadora da mente e da psicologia humana, bem como do funcionamento, criação e comportamento do Universo. Está escrevendo seu primeiro livro, um guia de qualidade de vida.

Nós inventamos as formas de medir, demos nomes para essas medidas, criamos o tempo cronológico, entre todas as nossas criações. Fomos nós que inventamos os nomes e significados de tudo quanto existe e esquecemos que são apenas invenções. O passarinho não sabe que horas são, nem em qual estação do ano está, tudo simplesmente é. Todo mundo sabe disso, mas julguei necessário repetir para entrar no assunto desse texto: o tempo psicológico.

O tempo cronológico e o tempo psicológico estão ligados, mas não são a mesma coisa. Usamos as mesmas medidas do tempo cronológico no tempo psicológico, no entanto, quanto mais fazemos isso, maior o abismo interior que criamos.

Acreditamos que haverá um amanhã para nós como indivíduos, mas a verdade é que não sabemos se haverá. É mais provável que haja um amanhã para a humanidade, mas não sabemos se estaremos aqui, nem podemos contar com isso. Sei que é assustadora a visão dessa realidade, mas é o que é. A mente inventa que haverá o amanhã, planeja de acordo com isso, cria metas, planos e objetivos, mas a verdade é que não sabemos se haverá. Imaginamos que morreremos todos de velhice, que manteremos o que temos ou que progrediremos na direção de nossas metas, mas como eu disse, é imaginação.

O tempo psicológico é pura imaginação. Sofremos no presente nos culpando pelo nosso passado. Jogamos nossas realizações e mudanças para o futuro, vivemos em tempos inexistentes: futuro e passado. Assim, deixamos de viver o presente. O que faço hoje é com o objetivo no futuro. O sacrifício, o esforço, a abnegação, a luta no presente, se justificam pela crença de que haverá um futuro melhor. Que nele, realizarei minhas metas e objetivos, que nele serei feliz. Toda a energia é gasta nesse propósito. O problema é que nem sempre o tempo psicológico está alinhado ao tempo cronológico. Os outros estão participando dessa nossa ilusão sem os termos informado. É assim que o outro não responde no tempo que você determinou mentalmente, que o outro toma uma atitude fora da atitude planejada por você, ou fora do tempo que você gostaria. Justificamos como falta de timing, e é mesmo porque o tempo do outro é diferente do nosso.

O tempo psicológico é individual e a sensação de velocidade também.

Vamos dia após dia odiando o nosso presente, deixando de viver o único tempo que existe com a esperança de alcançarmos algo no futuro, com a esperança de que a nossa vez vai chegar e ela virá de acordo com os nossos desejos e expectativas.

O quanto de energia desperdiçamos também tentando entender o passado? Como se pudéssemos corrigir as coisas do agora tentando entender o quanto os outros e as circunstâncias nos afetaram para sermos quem somos. Ainda que seja verdade, não temos como saber por que as pessoas são como são e por que fizeram o que fizeram, mas temos como perceber que no momento de qualquer ocorrência somos nós que estamos julgando e interpretando o acontecimento (ou a pessoa) de acordo com o nosso repertório.

Sabendo disso, entendemos que reagimos e interiorizamos os momentos vividos de acordo com o nosso repertório da ocasião, entendemos termos nos sentido como nos sentimos e também o motivo em termos culpado as pessoas de serem como elas são. Elas de alguma maneira não se encaixaram nas nossas ideias daquele momento e foram reforçando essa nossa mesma interpretação ao longo do tempo. Independentemente de como elas foram ou de como agiram, nossa mente sempre dá um jeito de comprovar nossas próprias teorias, interpretações e projeções.

Assim sendo, não há necessidade de análise do passado, me livro do peso que passei anos colocando sobre mim, compreendendo como minha mente funciona. Tiro também o peso que coloquei nos outros por eu ter me tornado quem sou. Realizo isso agora, não amanhã, por que não dá pra deixar pra amanhã o que acabo de compreender no presente. É imediato. A compreensão é sempre no presente.

O tempo psicológico é uma invenção nossa para a incerteza que é a vida. Morremos de medo de admitir que talvez não haja o amanhã para nós. Se não nos negássemos a ver esse fato, viveríamos todos os dias encontrando satisfação e propósito, deixaríamos de dar tanta importância para o passado e para o futuro, não levaríamos tão a sério a nossas ideias (elas estão em constante transformação), nem as ideias dos outros.

As ideias, o tempo inexistente e as crenças, geram conflitos, fragmentação e separação. Se víssemos que só temos o momento presente e que isso é tudo, não gastaríamos tanta energia pensando sobre o passado e o futuro. Não nos desgastaríamos para convencer alguém de que nossas ideias são melhores, nem pra destruir as ideias dos outros, afinal são só ideias. Teríamos energia para agir no presente (coisa que quase nunca temos, pois gastamos tudo em pensamentos), veríamos que tudo o quanto parece existir e ser importante são invenções humanas, incluindo o tempo, as teorias, as necessidades, as interpretações, as palavras e o significado delas.

Veríamos que não existem o bem e o mal, nem o bonito e o feio. Que essas palavras também foram criadas por nós, assim como seus significados. Cada língua tem uma palavra (ou mais) para o mesmo significado, ou melhor, para um significado aproximado, porque nem mesmo estamos de acordo com os significados das coisas. Por isso que existem a filosofia e a ciência.

Gostamos de acreditar na vida após a morte, em sucessivas oportunidades de retorno a Terra, na evolução da alma, na ideia de paraíso, tudo porque é difícil demais admitirmos que não sabemos o que acontecerá. Também porque podemos protelar para a próxima vida sermos as pessoas que gostaríamos de ser, mas que nos falta energia para sermos.

Quero ser mais compassivo, assim empreendo um esforço nesse sentido para que no futuro me torne o que quero ser, sigo algum tipo de treinamento que prometa me levar ao resultado desejado. Seja nessa vida ou em outra. Se vivêssemos no presente: quero ser compassivo, ajo com compaixão nesse exato momento. Esses exemplos de postergação e de vivência no presente funcionam para qualquer assunto que temos o hábito de protelar. Quero ser paciente, logo sou paciente agora. Quero ser feliz, sou feliz agora. Não há amanhã por mais que lutemos em manter essa ilusão.

Façamos agora o que gostaríamos de fazer no futuro e comprovemos que é no agora que tudo acontece. A ideia de tempo é uma armadilha e uma prisão.

Deneli Rodriguez.

20.03.2017.

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